sexta-feira, 9 de novembro de 2007

GERMICÍDIO


Numa poça de lama, desesperada, uma cachorra grávida matava sua sede. Tive pena dos germes carentes que eram engolidos a cada linguada selvagem daquela cadela vira-lata. Hoje, nem à condição de germe se está salvo.

Lati para a quadrúpede e ela se fez de desentendida. Na tentativa de distraí-la, miei. Mas ela estava muito concentrada engolindo vorazmente as pobres criaturinhas indefesas: fungos, bactérias, protozoários... Que culpa tinham os germes para servirem de água à cadela sem coleira? Não me permiti um ato de violência, mas bem que pensei em aniquilar os fetos famintos que ela carregava. Imagine amanhã: cinco feras peludas, secando cinco poças de lama, matando mais ou menos cinco milhões de germes!

Abandonei a idéia ao lembrar que muitas testemunhas estavam presentes: algumas centenas de carrapatos, duas rãs no canto da calçada, uma lagartixa solitária e três homens na frente de um bar. Reconheço que fui cúmplice do genocídio dos germes, porém muito mudou em mim depois daquele dia. É realmente difícil a vida de quem nasce sem brasão.

Pensei em montar uma ONG, organizar um protesto pelos germes indefesos na televisão. Talvez um show com artistas internacionais pela vida dos inocentes. Comecei com uma comunidade no orkut, mas as pessoas deviam estar muito ocupadas com seus espelhos para se preocupar com os germes de todos. Sim, os germes são patrimônio nosso e estão ameaçados pela ideologia de Hitler presente em cada cachorro abandonado. Liguei para alguns amigos que invejaram minha preocupação, tentando-me fazer desistir. Até que um deles me convidou para um rodízio, e fui.

2 comentários:

scrika disse...

Devia ter ligado pra mim.. a gente conversava sobre os germezinhos...

Xêro!

O Realívoro disse...

kkkk... pior que era!!!!
bj